PIB afunda 1,9% puxado por queda na indústria e investimento

A queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro na passagem do primeiro para o segundo trimestre do ano foi maior que a esperada pelo mercado financeiro, atingindo a marca negativa de 1,9%, contra a previsão média de queda de 1,7%.

Além disso, a retração do PIB no primeiro trimestre do ano foi revista e mostrou um cenário de maior deterioração do que o observado na medição inicial, passando de queda de 0,2% para retração de 0,7%.

Pelo lado da oferta, a indústria lidera a queda de produção, apresentando retração de 4,3% (resultado muito pior que os 3,1% esperados pelos analistas), seguida pela retração de 2,7% na agropecuária e 0,7% no setor de serviços.

Da ótica da demanda, a queda nos investimentos é a mais expressiva, tendo a formação bruta de capital fixo retraído 8,1%, o oitavo trimestre consecutivo de queda e que levou o investimento total ao patamar de 17,8% do PIB. A boa notícia vem do setor externo, onde as exportações apresentaram alta de 3,4% em relação ao trimestre anterior e 7,5% na comparação com o mesmo trimestre de 2014.

Na comparação com o mesmo trimestre de 2014, a queda do PIB alcançou 2,6%.

Segundo explica o economista Guilherme Mello, da Fundação Perseu Abramo, uma das grandes diferenças desta crise para diversas outras na história do Brasil é o seu ponto de partida:

“Iniciamos o período de recessão contando com taxas muito baixas de desemprego e uma década de importantes avanços sociais e econômicos. Talvez por isso mesmo os impactos da crise sejam tão visíveis, dada a recusa da maior parte da população em retornar à situação anterior, provocando fissuras sociais e pressões políticas que certamente se agravarão caso o quadro recessivo não se reverta rapidamente”.

Segundo Mello, a ideia inicial de promover um ajuste recessivo breve, no qual os gastos do governo e os salários cairiam de maneira controlada para reduzir a inflação, trazendo como saldo positivo a recuperação da confiança dos empresários e a queda das taxas de juros longas, fracassou. Ao contrário, o “ajuste” promovido (tanto fiscal quanto monetário) atirou a economia brasileira em uma espiral recessiva descontrolada, sem apontar para nenhuma saída possível no médio prazo.

“Caso decida-se aprofundar a atual política econômica, corre-se o risco de piorar a recessão e destruir um conjunto de avanços sociais conquistados ao longo dos últimos anos”, explica.

Para o economista, a retomada dos investimentos públicos e privados, a preservação do emprego, o financiamento do Estado e a recuperação dos setores industriais mais comprometidos com a crise (como é o caso da construção civil) deveriam ser prioridades do governo no momento atual, pois só assim o país poderá voltar a crescer e reverter a situação delicada em que se encontram as finanças públicas.

Para isso, no entanto, faz-se necessário promover uma mudança na estratégia da política econômica, priorizando a retomada do emprego e do crescimento, utilizando a macroeconomia como instrumento do desenvolvimento econômico e social do país.